Môa - I

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Ela revirou os olhos e deu um sorriso sacana. Sabia que apesar daquele montante de olhos a fitando e desejando, seria eu que a tiraria de órbita. A música estava bem alta e as luzes não paravam de piscar, minha barriga dava choque. Até onde eu iria aguentar toda aquela tentação? E ela vinha cínica dançar perto de mim e falar qualquer coisa só para se aproximar o suficiente da minha boca. Lembrei do dia anterior: sua amiga me dizendo que ela estava fixada no que eu fazia, que iria me roubar. Quanto atrevimento! Ela era mais velha que eu uns cinco anos, suas tatuagens revelavam a sua rebeldia, mas seu sorriso gritava que na verdade só queria ser feliz, livre! Senti uma mão fria segurar a minha e me levar diante daquela multidão. Era ela: 
- Quero fumar!
Eu fiz um 'eu tenho escolha?' com a cara, a maluca me deu língua. Só não conseguia entender porque estávamos indo para a saída ao invés da área de fumantes.
- Relaxe.
Saímos andando pela calçada, ela agarrou no meu braço esquerdo, como se quisesse se aconchegar:
- Então isso é algum tipo de sequestro?

Ela suspendeu a sobrancelha:
- Você veio porque quis - Retrucou.

Eu conhecia Môa há algumas semanas, mas parecia que eram anos! Ela era tão intensa que me fazia sentir desnuda o tempo inteiro. Entramos em um tipo de restaurante rústico, super aconchegante. Tinha uma fonte no meio e muitas árvores. Os bancos eram de troncos e tocava uma música deliciosa. Sentamos e a garçonete veio nos cumprimentar. 
- Você tem vinho do porto?
A moça assentiu com a cabeça.
- Me traga um.
- Achei que você quisesse fumar.
- Já, já.

Ela sentou do meu lado e se virou diante de mim. Olhou bem dentro dos meus olhos. Corei, sorri de canto e baixei a vista. Môa mexeu no meu cabelo, levantou meu queixo e eu só estava tentando disfarçar o batuque do meu coração. 
- Eu não consigo mais parar de pensar em você.

Sabe quando a gente quer sair correndo de tanta felicidade, chega a ficar abobada mas se faz de séria? Pois então! Não consegui dizer mais nada.
- O que foi? Achei que não fosse surpresa.

E não era. Mas você saber de uma coisa por instinto é bem diferente de quando se sabe pela boca da própria pessoa. Me ajeitei no banco, prendi o ar e soltei de vez. O vinho chegou, salva pelo gongo! Môa fez questão de servir e me entregou a taça.
- Precisamos brindar.
- O quê?
- Nós duas.
Sorri, ela sorriu junto. Demos um gole no vinho sem tirarmos o olho uma da outra. Quando acabou ela passou sua mão, ainda fria, pela minha cintura e veio sussurrar no meu ouvido. 

- Tô precisando de um beijo seu.

Eu já não conseguia ver mais ninguém que estava por ali, a água que caia da fonte e até as batidas do meu coração emudeceram. Só éramos nós duas e o tempo parado, observando a próxima ação. Coloquei minha mão sobre o seu rosto, ela fechou os olhos. Consegui sentir o seu cheiro me embriagando, cheguei mais próxima, o gosto do hálito fresco era irresistível. Senti, agora, seu coração bater mais forte. Amoleci, e ela me beijou.

Continua...

- Jéssica Trabuco